Mulher deixa salário inferior e vai em busca do empreendedorismo

Em um cenário em que as mulheres recebem salários inferiores aos homens no mercado de trabalho formal, além de enfrentar preconceitos e desafios da maternidade, o empreendedorismo feminino ganha força na região de Campinas (SP). Para a professora e economista Eliane Rosandiski, responsável pela área de trabalho e renda do Observatório PUC-Campinas, o abismo financeiro é uma das razões que levam as mulheres a empreender.

“A realidade do mercado de trabalho, muitas vezes, não oferece uma possibilidade de crescimento, dependendo da ocupação que a pessoa exerce. Talvez, em uma atividade empreendedora, isso possa aparecer como uma possibilidade de realização maior”, explica Eliane.

Além da questão financeira, mulheres buscam no empreendedorismo uma forma de se reinventar. Para Mariana Cunha, foi preciso começar um novo negócio para atingir a realização pessoal.

Formada em comunicação e com uma carreira de 10 anos na área, ela não conseguiu se imaginar mais na profissão após desenvolver um processo de pânico, que desencadeou em uma depressão. Nesse momento, a publicitária achou a saída em um antigo hobby, que era cultivado como uma válvula de escape para aliviar o estresse.

Em parceria com um amigo, Mariana optou por empreender em algo que lhe trazia prazer e tranquilidade e, posteriormente, a cura.

"Foi o estresse que me trouxe o pânico e a depressão, e foi a cozinha que me tirou disso tudo. Era na cozinha que eu me encontrava, ficava em paz, que meus medos iam um pouco para longe, e aí que foi me dando segurança para recomeçar a minha vida. A cozinha deixou de ser aquele acaso esporádico, e começou a ser o dia a dia mesmo, porque era ali que eu me sentia bem", diz.

Para a chef de cozinha, que atualmente também é responsável pelo setor de marketing do restaurante, o começo há quatro anos foi um pouco desafiador, mas a recompensa é gratificante.

"Apesar de ser um território que eu não conhecia, e no início ficar um pouco assustada, para mim foi bem libertador, porque eu tinha certeza que, a partir daquele momento, qualquer consequência que acontecesse era de responsabilidade minha. Eram consequências da minha escolha. E eu acho isso muito positivo. Eu achei que era uma boa oportunidade para me desenvolver como profissional e como pessoa também", finaliza Mariana.

 

Maternidade

 

A chegada de gêmeos foi o estímulo para Lia Castro iniciar o seu projeto de empreendedorismo, em parceria com a amiga Carmem Madrilis. Empresária do setor de comunicação há nove anos, Lia conta que se viu julgada por ter escolhido ter mais filhos.

Nessa época, Lia e Carmem começaram a pesquisar outras formas de ajudar mães que, como Lia, estavam passando por problemas em seus trabalhos formais, e nas carreiras que tinham antes de abraçar a maternidade. E o empreendedorismo apareceu como alternativa.

Foi nesse momento que as duas amigas fundaram o Grupo M.Ã.E, uma plataforma de auxilia as mães empreendedoras através de conteúdos, mentorias e interação entre as profissionais.

Para Lia, a iniciativa ajuda a se reinventar no mercado de trabalho. “Elas descobrem que é possível ter outro tipo de trabalho. Trabalhos remotos, trabalhar Home Office, abrir o seu próprio negócio, seja uma loja física ou até online. E é aí que surge o empreendedorismo materno”.

A plataforma online já abrange associadas do Distrito Federal, dos estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Pernambuco, Paraná, Rio de Janeiro, Roraima, Santa Catarina, Sergipe e São Paulo, além de participantes dos Estados Unidos, Canadá e Paraguai. A taxa de participação é de R$ 25.

Lia Castro ainda define que a missão do Grupo M.Ã.E “é ser o ecossistema da mãe empreendedora, de forma integral”.

 

Trabalhando com o filho

 

A maternidade também foi uma inspiração para Ana Paula criar em Campinas (SP) um espaço de co-working, onde algumas mães trabalham junto aos seus filhos, de uma forma natural. A Oca Urbana, que funciona no Parque Taquaral, foi desenvolvida a partir de uma experiência pessoal da farmacêutica de formação.

“Eu parei de trabalhar e optei por acompanhar a primeira infância dos meus filhos, hoje com 11 e 10 anos. Depois, o que aconteceu é que eu tinha muita dificuldade de retomar a minha carreira. E eu falei: Bom, então eu tenho que me tornar o meu emprego. Então eu vou pegar o meu capital pessoal e intelectual e vou transformar isso em um negócio”, explica Ana Paula.

Através da rede social, Ana conheceu a arquiteta Vivian, que trabalhava em casa com dois filhos pequenos. Após algumas conversas, ambas perceberam que existia uma demanda por conciliar trabalho e maternidade.

“Basicamente, ele (o espaço) vem da força empreendedora de mulheres, elas é que estão puxando essa fila de novos negócios relacionados a esses novos modelos e economias”, comenta.

Fundadoras do espaço de co-working Oca, em Campinas (SP) — Foto: Acervo pessoal

Apesar de funcionar como um espaço de trabalho para todas as pessoas que têm interesse, tanto homens quanto mulheres, sem a necessidade de possuírem filhos, Ana Paula explica que a Oca funciona em conjunto com a vivência dessas crianças que ficam no ‘meninário’, que funciona no local.

“Nossa motivação era entender que as crianças, elas precisam se aproximar mais do mundo do adulto, e o mundo do adulto precisa se aproximar mais das crianças, porque hoje elas estão muito apartadas desse universo”, comenta Ana Paula.

Atualmente, o local também abriga um guarda-roupa compartilhado e um grupo de médicos de família e comunidade, chamado Coletivo Íris.

 

Mudança de carreira

 

A procura por novos negócios e a vontade de empreender motivaram Graciandra da Silva após 12 anos trabalhando em um banco. Uma rotina saturada e cansativa foi a motivação para a empresária focar no ramo de consultorias sexuais para mulheres. O que começou com a revenda de produtos sensuais, tornou-se a profissão que exerce atualmente.

"Comecei a fazer reunião de amigas. Juntava um grupo de mulheres e ia apresentar os produtos. Só que eu vi que elas tinham muita falta de informação, não era simplesmente chegar lá e vender. Então eu vi que precisava estudar mais, me aprofundar mais. Eu queria levar informação de qualidade", comenta.

Graciandra relembra que o início do empreendimento, que envolve alguns tabus e preconceitos, também veio acompanhando de dificuldades.

“Não tem como começar a empreender sem sentir medo. Eu acho que chega uma hora que a gente precisa arriscar pra saber se vai dar certo ou não e em todo negócio a gente precisa ter paciência, mas no meu eu diria que precisa do dobro. Mesmo que as pessoas achem que é um trabalho diferente, bacana e tudo mais, existe muito preconceito, muito tabu, e aos pouquinhos a gente tem que ir quebrando isso”, exemplifica.

Os serviços de Graciandra são prestados em três vertentes: eventos (como palestras em empresas), reuniões entre amigas (como chás de lingerie) e a consultoria individual. Entretanto, esse ramo ainda é pouco explorado em cidades da região.

Apesar dos obstáculos, a sex coach acredita que, com o tempo, seu empreendimento não será mais visto como algum tão incomum. “Então até as pessoas me conhecerem e saberem que meu trabalho é diferenciado, leva tempo. Eu preciso acreditar nisso, que elas vão demorar pra se acostumar com a ideia. Meu propósito é fazer a vida das mulheres mais prazerosa e feliz”, finaliza.

Reportagem do site G1

Link completo: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2019/03/08/mulheres-troc...